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Ariana

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ALL OF MY WORKS ARE SUBJECT TO COPYRIGHT LAWS. DO NOT USE WITHOUT WRITTEN CONSENT CONTACT: joseferreiraphoto@gmail.com "Ariana" Documentary Project Photography: José Ferreira Text: Nuno Silva Text Translated: Mariana Luz & Jenny Chick “Every day I discover that I don’t know myself... today, tomorrow its always the same. I discover that I don’t know where I’ve been. I’ve lost myself and lost the will to live.” I know that once there was a name. I know that she remembers it, but doesn't want to. It embarrasses her and makes her eyes teary. Let’s call her Ariana. Ariana doesn’t have a name, but she has a story. She keeps it in her veins, the reason for such apathy. The most known cliché amongst women of the night: drugs, money and prostitution. She sells her body in order to console her soul. She tells me: “I’ve already forgotten that I have a body. I just use it." I know that she fells dead inside, trapped in a body that she keeps hurting. She hides behind her blurry, unreadable eyes, but I know that deep inside there's still a part of her that wants to live. The body that she carries hurts her soul. She feels heavy, between the constant pain of loading bony shoulders and skinny legs. Never in such a short period of time have I ever felt so bad for watching such apathy and degradation. Between every cigarette that she devours without noticing, I feel that the conversation starts to get inconsistent. An inconsistence caused by a mist of fear and shame. All the responses are short and straight, but carry all the truth in the world. I feel intimidated in front of a reality that I know so little. - Do you know what you are? - "Yes ... I'm a hooker". Life had tattooed her feet with calluses, hands with scars and her veins with tiny little points that tend to grow in number and violence. The fierceness with that she drugs herself numbs her soul and senses. "The absolution of the weakness" the most beautiful metaphor for a terrible, consuming and incomprehensible lie. Life was never easy for her and it's difficult to struggle against some eyes that refuse to be open. A weakness that became really powerful and grotesque. It's not easy to change. It's not easy to fight against the will of her nails, of hers fingers, skin and bones. The fight, the one that she pretends to have it's called "methadone"; and every morning she surrenders. Coming and going... that satanic routine. Ariana doesn't know why she does it. It seems to help healing the hangover, but the taste seems to dilute faster than the traces of each man that touches her body. The results, although, never seem to exist. The walls of that shelter, where she rests her shadow, and that she divides with other partners of “war", tend to compress on her. It's collosal the sensation of suffocation and discomfort that those four walls impose on me. Ariana isn't intimidated, moreover she has spiked in herself seven years of imprisonment in Caxias, for something that doesn't make sense anymore. A confusing story about passports and traffic, the kind of story that the less you know the better. The "lucky hour" approaches. Her eyes fade for an instant. With the same ability that she was rolling a shroud of tobacco and drugs, between a pile of bags and cards she starts to put on the right type of clothing and coloring her lips with a used lipstick. She's ready! Ariana knows exactly what she’s got to do. Where she's going, who's waiting for her, some regulars or some new "treasures" that might appear. The prices change and so do the services. When I asked her if she had some limits, she hesitated. She seemed that she didn't want to compromise her will of being honest and the endearment that she felt that she was starting to conquer from me. I repeated: "Do you have limits?" In fear she answered, "I do everything that they want to pay for." By this time the questions became almost as vile as the responses. I feel dirty, nasty and guilty. I hear Ariana talking about prices and I start to drown myself in assumptions, like a puzzle that doesn't seems to be complete. "What’s the price of a "ride"? 5 or 10 euros." That body, the subsistence for her and others, her hiding-place, has for her a smaller price than the drugs that she consumes. "Do you have pleasure?" "Pleasure…?" - she laughs - " Only when I get home with money enough to eat something and for a good dose." The forgotten body… the makeup… returning home with the same emptiness that when she left. She doesn’t clean herself, doesn’t feel disgusted nor remorse from the last hours of giving to others the only thing that still belongs to her. It's really hard to realize that this parallel universe coexists so close to us. There are lots of Arianas in every corner of our cities… but no one knows them, no one ever sees them. “I don’t know why I do it. I don’t feel them touching me. The only thing I know is that every day I get up and know what is expected of me. Will it end someday? Well … the drugs will end me first ...” “Why Ariana?" "Because I have a son …” ----------------------------------------------------------------------------------- “Descubro que não me conheço. Todos os dias. Hoje, amanhã. Descubro que não sei de mim e onde fiquei. Perdi-me, e assim me prefiro deixar viver.” Sei que em tempos houve um nome. Sei que se lembra, mas o evita. Envergonha-a, humedece-lhe os olhos. Desse não quero eu saber - chamemos-lhe Ariana. Ariana não tem nome, tem uma história. Tem nas veias, aquelas que constantemente viola, camuflada a razão de tamanha apatia. O vício. O mais clássico cliché da mulher da vida. A droga. O dinheiro. A prostituição. A venda do corpo para consolo da alma. A mim, diz-me: “já esqueci o corpo que tenho. Uso-o”. Sei que já só se sente, como eu me sinto em mim, sepultada sob a pele que castiga uma e outra vez. Esconde-se algures por trás de uns olhos embaciados, ilegíveis. Sei que existe, mas pouco dessa consigo conhecer. O corpo que carrega magoa-lhe a alma. Sente-o pesado entre uns ombros ossados e ressequidos, sobre umas pernas tão pouco suas, que apenas de sua lhes conhece a cor. Nunca tão pouco, um estado tão letárgico de vida, definhando sobre si, me tatuou o ânimo de forma tão permanente. Entre cada cigarro que devora sem dar conta, sinto que uma cadência de conversa inconsistente. Uma cadência que flui ao ritmo de cada palavra, porque o medo e a vergonha são nela cúmplices e teimam constantemente em atropelar-lhe a língua. As respostas aqui são curtas e duras, mas carregam em si toda a verdade do mundo. Intimidam, despertam-me para uma realidade de que pouco sei. Sabes o que és? “Sim…sou puta”. A vida tatuou-lhe os pés de calos, os dedos e as mãos de cicatrizes, as veias de pontinhos miudinhos que tendem a crescer de número e violência. A violência com que droga o corpo e lhe adormece a alma e os sentidos. A absolvição dos fracos. A metáfora mais bonita de uma mentira faminta, consumidora, incompreensível. Não lhe foi fácil a vida, não lhe é fácil contrariar uns olhos que se recusam abrir todos os dias. Uma fragilidade possante, grotesca. Contrariar não é fácil. Não é fácil lutar contra a vontade das unhas e dos dedos, da pele e dos ossos. A luta, a única que finge travar, rende-se todas as manhãs. Metadona. Aquele ir e voltar, aquela rotina satânica. Ariana não me sabe explicar porque o faz. Parece que dizem ajudar na cura ou na ressaca. Deixar nunca, e isso sabe-o bem. O sabor parece diluir-se mais depressa que os vestígios de cada homem no seu corpo. O efeito, parece nunca existir. Os muros daquele refúgio, o abrigo onde repousa a sua sombra e que divide com um e outro companheiro de lutas, tendem a comprimir-se sobre si. É colossal a sensação de sufoco e desconforto que aquelas 4 paredes em tempos caiadas impõem sobre mim. Ariana não se parece intimidar. Aliás, tem cravados em si, perpétuos e massacrantes, os 7 anos de prisão em Caxias, por algo que de hoje, nada de si tem. Uma história confusa de passaportes e tráficos. Uma daquelas histórias nebulosas que de quanto maiores, menos se sabe. Aproxima-se a hora da sorte. Os olhos cedem por instantes. A mesma agilidade que há momentos enrolava entre dedos esgotados uma mortalha aconchegada a uma sopa de tabaco e droga, parecem agora fazer levitar aquele corpo entre um entolhado de sacos e cartões de onde a hábito vai tirando peças de roupa incompatíveis e um batom gasto, usado, e muito pouco seu. Prepara-se. Ariana sabe o que tem a fazer. Para onde vai, quem a espera, entre os habitués e algum “tesourinho” novo, que possa surgir. Os preços variam. Os serviços também. Se lhe pergunto o que faz, se impõe limites, hesita. Parece não querer comprometer a sua voluntariosa necessidade de ser sincera e o carinho que parece sentir conquistar da minha parte. Repito-lhe, “fazes tudo?”. A medo, “sim, tudo o que quiserem pagar”. A este ponto as perguntas tornam-se quase tão vis quanto a violência das respostas. Sinto-me porco, sujo e culpado. Oiço-a falar de preços e afogo-me numa consequente assumição de um puzzle que parece não querer completar-se. “O preço de uma voltinha? 5, 10 euros”. Aquele corpo, o seu, sustento dela e de outros, o último esconderijo de si e do mundo, a maior das vitimas de um pressuposto erro – a sua existência –, tem para ela valor menor, que a droga que a viola mais que cada ronda. Tens prazer? “Prazer? Quando chego a casa com trocos no bolso suficientes para uns miolos amanhã e uma dosezinha da fofa” - ri-se. O corpo esquecido, maquilhado por horas, volta a casa com a mesma sensação vazia com que partiu. Não se limpa, não se enoja, não assume qualquer remorso das últimas horas em que deu muito, e para muitos, tudo o pouco que ainda tem como seu. É difícil assumir este universo remoto num cenário tão atual e próximo daquele em que acordo todos os dias. Arianas existem, como esta, um pouco por todos os cantos e ruas, um pouco por todos os bancos de jardim e cafés comuns da nossa cidade. Ninguém as conhece. Ninguém as vê. “Não sei porque o faço. Não os sinto tocarem-me. Sei que todos os dias me levanto e sei que o tenho de fazer. Se vai acabar um dia? A droga acaba comigo, antes que eu acabe com ela.” Porquê Ariana? “Tenho um filho. Tenho um filho.”
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